A história que
eu vou contar
É um caso de pasmar,
É coisa muito afamada.
Foi um feito de arrebenta
Da Coimbra anos 50
– A Gruta da Cumeada!
Só não veio no “Calino”
Que me alembro, em menino,
Ter dito, essa avantesma,
Que ia faltar a luz
Na Rua Ferreira Borges
E na Visconde da mesma!…
Foi junto ao Café Madeira,
Num poisio à maneira
Onde os putos da Avenida
Jogavam sempre à molhada
Como se cada jogada
Fosse mais que a própria vida.
Para esfolar os joelhos,
Lá estava o Luís Pinto Coelho,
O Manel, eu e o Ney
– Os quatro Satiagrás,
Um grupo que era capaz
Do que nunca vos contei:
Lá no fundo do poisio,
Por um carreirito esguio
Fomos os quatro explorar.
E não é que, de repente,
A parede à nossa frente
Era boa de escavar?
Logo o Manel risca a entrada
Daquela enorme empreitada
(Um esforço filho-da-puta!):
– Agora é de sol a sol,
Acabou-se o futebol,
Vamos abrir uma gruta!
Arranjámos pás e picas,
E enxadinhas maricas
E madeiras pra escorar.
Os da frente iam picando
A terra que iam passando
Para os de trás a vazar.
Capacetes não havia,
Que a gruta não cairia.
Só uns lenços na cabeça
Com um nó em cada canto
Para espantar o quebranto
E tudo o mais que apareça.
E a obra lá seguia,
Dois turnos em cada dia,
Um logo antes do almoço,
Outro antes do jantar,
E depois era zarpar
Para lavar o pescoço.
E os requintes eram tais,
Que as paredes laterais
Tinham uma cavidade
Para pôr uma velinha.
Não pr'adorar a santinha,
Mas para dar claridade!
Até onde a gruta iria
Ninguém nunca o saberia.
Certo é que, se chovesse,
Lá estávamos abrigados
Todos quatro, consolados,
Até que o sol aparecesse.
De tão contentes andar,
Nem cuidámos de ocultar
O segredo do tesouro
Que nos trazia encantados,
Entretidos e inchados…
– Era a nossa mina de ouro!
Mas o Pai Manuel Veloso,
Ao saber do nosso gozo,
Fez questão de ir ver a obra.
Achou que aquilo era um perigo
E embargou-a com o motivo
“Que tinha razões de sobra”!
E, pra ficar descansado,
Trouxe de Ançã um criado
Com uma enxada de respeito
Que se atirou contra a gruta
Com a sua força bruta
E deixou tudo desfeito!
E assim terminou a história
Da gruta de má memória
Que uns putos da minha idade
Construíram com a esperança,
No seu sonho de criança,
De ficar prà Eternidade!
Zé Veloso
À memória dos auto-denominados Satiagrás, um grupo de quatro miúdos da
Avenida Dias da Silva inseparáveis nas suas diversões: o meu irmão Manel Veloso,
o Luís Pinto Coelho, o Ney Ferrand d’Almeida e eu próprio.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
história trágico-cómica da gruta da cumeada, à casa verde
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Grande abraço, uma preciosidade de grande sensibilidade e arte, boas memórias dessa juventude partilhada.
ResponderEliminarAgora que tenho lido muita poesia popular, reconheço que o António (Aleixo) tem muito que andar para atingir o nível em que te colocaste… continua a descobrir histórias lindas nas grutas da tua infância e não só… pois penso que terás muito a contar aos maiores de 75 .
ResponderEliminarUm belo quarteto!
ResponderEliminarBela história junto ao Café Madeira por onde tb andei com a minha Trupe du Moinage . Bons velhos tempos !
ResponderEliminarQue escrita extraordinária, primo Zé, e que história aventurosa, de encantar! Obrigada, adorei bjs.
ResponderEliminarSensacionais,a história e a poesia Também joguei nesse pelado e explorei as cisternas da quinta de S.Jerónimo.
ResponderEliminarZé Veloso o mais encantador de todos nós que sempre se distinguiu como um amigo inquebrantavel. Do José Rei, vosso amigo e admirador. 😊
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