sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

lengalenga covid

Estava eu no bom descanso
A gozar o meu remanso
Com a variante Delta
– Uma indiana esbelta
Com quem estive vacinado
(Até, de papel passado)
Depois de um curto namoro
Com uma inglesa sem decoro,
Essa Alpha que, há um ano,
Mandou tudo prò catano –,
Veio agora esta galdéria
Que parece ter mais léria,
Ser melhor a engatar
Mas mais fraca a consumar;
Quando mal que seja assim,
Mas ai de mim!, ai de mim!,
Que tudo está em mudança,
Haja esperança!, haja esperança!
Cuidado com a Omicron,
Pra todos um Ano Bom
E a próxima que vier
Que seja o que Deus quiser.

Zé Veloso 

terça-feira, 29 de junho de 2021

era o grupo da morte

 

Era o grupo da morte, da morte mais negra
Era o que se dizia
Só demónios e bruxas, lacraus e piranhas
De noite e de dia
Na roleta da morte ninguém estava a salvo
E o tempo corria
Pró apito final daquele jogo infernal
Que a sorte decidia

Entre mortos e feridos passámos à justa
Pró que se seguia
Oitavos-de-final, vamos lá, Portugal
A malta já sorria
Para trás lá ficou, com dois pontos apenas
A nefanda Hungria
Eram três mosqueteiros que iam, lampeiros
Em frente, à porfia

No domingo, em Sevilha, a Bélgica avançava
E Portugal caía
Na segunda, com estrondo, a França tropeçava
E já não se erguia
Mais um dia passava, a Alemanha ficava
Tão dura e tão fria
E do grupo da morte, da morte mais negra
Ninguém escaparia

Zé Veloso

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

vingança de confinado

Para mal dos meus pecados,
Tenho os critérios errados!

Nem médico ou enfermeiro,
Nem técnico de saúde,
Nem GNR nem bombeiro;

Nem sequer vou amiúde
Visitar um qualquer lar,
Nem cuido de algum doente,
Nem estou na linha da frente
De coisas pra “desvirar”.

Também não estou nos oitenta.
E, logo pra meu azar,
Cinquenta e cinco passei,
Mas no meu CV não tenho
A abençoada maleita
Que me daria a receita
Para a vacina tomar.

É galo! Pura injustiça!
Anticonstitucional!
Sendo eu são, maior de idade,
Não ter quem me recomende
Para um grupinho de risco
Só pode ser por maldade!

Sou um simples confinado
Que, como qualquer penante,
Que, como qualquer mortal,
Só quer morrer descansado,
Se possível, mais adiante
E de morte natural.

Mas se por ventura acharem
Que não posso tomar já
Essa poção, por desgraça,
Saibam que serei vingado:
Pois quantos mais a tomarem,
Em cada dia que passa,
Menos provável será
Que venha a ser infectado.

Zé Veloso 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

o estado de emergência e os "votos cómodos"

Depois de ter atingido os piores índices pandémicos a nível mundial, Portugal começou, enfim, a melhorar a sua situação. Dizem os cientistas, todos eles, que o brusco abaixamento do número de novos casos se deve ao confinamento a que nos temos sujeitado. Os mesmos cientistas afirmam, unanimemente, que ainda não é tempo de abrandar, que temos de continuar confinados.

É neste contexto que a Assembleia da República discutiu hoje o decreto de renovação do Estado de Emergência, indispensável para que o dito confinamento possa continuar.

Estranhamente, ou melhor, como habitualmente, quatro partidos e uma deputada independente votaram contra, enquanto um outro partido se absteve.

Há quem chame a estes votos “votos incómodos”, porque não sendo decisivos – 6,5% contras; 8,3% abstenções – têm o condão de incomodar as consciências.

Porém, tendo-me dado ao trabalho de seguir a sessão e escutar atentamente os argumentos utlizados por cada um, tenho a convicção de que quem votou contra e quem se absteve, se neste momento tivesse a responsabilidade de governar, forçosamente teria votado a favor!

É por isso que estes votos não chegam a ser incómodos. Eles são, simplesmente, “votos cómodos”: – se as coisas correrem bem doravante, ninguém se irá lembrar de quem votou… até porque o bem raramente é notícia; – se as coisas correrem mal, sempre nos virão dizer que nunca votaram a favor!

Zé Veloso

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

apontar ao alvo errado

Se há ladroagem no bairro, o povo grita aqui-d’el-Rei que a culpa é da falta de polícia!

Se cai um prédio ou uma ponte, de certeza que a fiscalização estava a dormir.

Se há quem se aproveite do RSI, a culpa é da SS que não fiscaliza!

Se numa sala de exames os alunos copiaram é porque não havia vigilantes suficientes!

Se temos tantos acidentes de viação é porque faltam GNRs a patrulhar as estradas!

Se houve moscambilha na Bolsa foi porque a CMVM esteve distraída!

Se os Bancos fintaram o Banco de Portugal é porque o Banco de Portugal se deixou fintar!

Se um chico-esperto se aproveita das vacinas, a culpa é da task-force que só se lembrou de vacinar os chicos e se esqueceu de que, à mistura, viriam também os espertos!

Choca-me esta sistemática fixação no alvo errado. E o pior é que quando nos fixamos na falta da polícia, os ladrões passam a meninos de coro que apenas foram deixados sem ninguém a tomar conta deles …

Zé Veloso

sábado, 9 de janeiro de 2021

uma vergonha para a América, um aviso para o Mundo

Em 2016, estava Hillary Clinton bem à frente nas sondagens, Trump recusou admitir que aceitaria a derrota nas urnas, argumentando que as eleições seriam fraudulentas.

Uma vez eleito, não só as eleições deixaram de ser fraudulentas, como fez tudo para boicotar a investigação sobre a interferência russa nessas mesmas eleições. Cereja no topo do bolo, indultou recentemente várias figuras da sua confiança condenadas na sequência de tal investigação!

Quando as sondagens viraram a favor de Joe Biden, Trump lembrou-se novamente do “pára-quedas de emergência” das eleições fraudulentas, que estava esquecido há anos no fundo armário. E o que se seguiu não foi mais do que o cumprimento – ponto por ponto – de um guião para o qual vários analistas já vinham avisando há muito, guião que previa desde uma série de jogadas de baixa política e de constitucionalidade duvidosa até ilegalidades puras e pressões de toda a ordem, não excluindo a confrontação física.

Mas… atenção! Tudo legitimado pelo imperativo moral de haver que corrigir um roubo eleitoral! Ou seja, tudo justificado por uma causa justa! Uma “causa justa” que nenhum tribunal, com juízes nomeados fosse por quem fosse, conseguiu vislumbrar em quase 60 (sessenta!) queixas apresentadas pelos mandatários do Partido Republicano!

Afinal, as ditas fraudes não passavam de "factos alternativos", como muito bem lhes chamou em 22 de Janeiro de 2017 Kellyanne Conway, então conselheira do recém-empossado Trump, quando este pretendia fazer crer, contra as evidências dos registos televisivos, ter tido mais gente do que Obama na tomada de posse... 

Chegados aqui, não são ainda conhecidas as consequências imediatas da invasão do Capitólio. Nem tão-pouco se sabe se Donald Trump continuará a açular as suas hostes, mesmo com as contas cortadas nas redes sociais – uma vergonha para um qualquer Presidente, mesmo que fosse de um país do quarto Mundo. Muito menos se conhecem as consequências a prazo que todo este desvario não deixará de ter na América.

Mas de uma coisa o Mundo voltou a ser avisado: 
de que é muito difícil apear do poder um tirano populista, arrogante e mal-criado, ainda por cima racista e xenófobo, que se apresente como justiceiro contra uma parte da sociedade e que diga que é melhor do que os outros só porque vem de fora do sistema e quer acabar com ele. 

Zé Veloso