Em 2016, estava Hillary Clinton bem à frente nas sondagens, Trump
recusou admitir que aceitaria a derrota nas urnas, argumentando que as eleições
seriam fraudulentas.
Uma vez eleito, não só as eleições deixaram de ser
fraudulentas, como fez tudo para boicotar a investigação sobre a interferência
russa nessas mesmas eleições. Cereja no topo do bolo, indultou recentemente várias
figuras da sua confiança condenadas na sequência de tal investigação!
Quando as sondagens viraram a favor de Joe Biden, Trump lembrou-se
novamente do “pára-quedas de emergência” das eleições fraudulentas, que estava
esquecido há anos no fundo armário. E o que se seguiu não foi mais do que o cumprimento
– ponto por ponto – de um guião para o qual vários analistas já vinham avisando
há muito, guião que previa desde uma série de jogadas de baixa política e de constitucionalidade
duvidosa até ilegalidades puras e pressões de toda a ordem, não excluindo a confrontação
física.
Mas… atenção! Tudo legitimado pelo imperativo moral de haver
que corrigir um roubo eleitoral! Ou seja, tudo justificado por uma causa justa!
Uma “causa justa” que nenhum tribunal, com juízes nomeados fosse por quem fosse,
conseguiu vislumbrar em quase 60 (sessenta!) queixas apresentadas pelos mandatários
do Partido Republicano!
Afinal, as ditas fraudes não passavam de "factos alternativos", como muito bem lhes chamou em 22 de Janeiro de 2017 Kellyanne Conway, então conselheira do recém-empossado Trump, quando este pretendia fazer crer, contra as evidências dos registos televisivos, ter tido mais gente do que Obama na tomada de posse...
Chegados aqui, não são ainda conhecidas as consequências imediatas
da invasão do Capitólio. Nem tão-pouco se sabe se Donald Trump continuará a açular
as suas hostes, mesmo com as contas cortadas nas redes sociais – uma vergonha
para um qualquer Presidente, mesmo que fosse de um país do quarto Mundo. Muito
menos se conhecem as consequências a prazo que todo este desvario não deixará
de ter na América.
Mas de uma coisa o Mundo voltou a ser avisado:
de que é muito difícil apear do poder um tirano populista, arrogante e mal-criado,
ainda por cima racista e xenófobo, que se apresente como justiceiro contra uma parte da sociedade e que diga que é melhor do que os outros só porque vem de fora do sistema e quer acabar com ele.
Zé Veloso