Contava o meu Pai que apareceu um belo dia em Coimbra um artista cujo talento consistia em comer um cabrito assado em frente de quem quisesse pagar bilhete para presenciar tal espectáculo.
Não sei em que ano a coisa se teria passado, mas o que se dizia
é que o Teatro Avenida, apinhado desde a primeira fila da plateia atá ao cimo do
último balcão, assistiu boquiaberto àquela bizarria de estarem para ali
centenas de marmanjos a salivar, enquanto um homem solitário, sentado numa mesa
a meio do palco, ia paulatinamente devorando de cabo a rabo um cabrito assado,
porventura de guardanapo ao pescoço e garrafão de vinho tinto à mão.
E mais se contava que, tendo ficado à porta do Teatro uma
chusma de gente que já não conseguira arranjar lugar, o nosso artista tinha
acedido a repetir a dose, prestando-se a uma segunda sessão, que decorreu com
tanto público quanto a primeira.
E porque ao fim de duas sessões ainda havia povo na rua gritando para ver o fenómeno, o gerente do Teatro foi junto do artista saber se não se
importaria de comer ainda mais um cabrito.
Foi então que, para desgosto de toda aquela boa gente que
apenas queira ver para crer, o nosso homem se desculpou, humildemente: – Tenham
paciência, não é por má vontade, mas já é tarde e eu ainda nem sequer jantei!
Zé Veloso