quarta-feira, 30 de agosto de 2023

história trágico-cómica da gruta da cumeada, à casa verde

A história que eu vou contar
É um caso de pasmar,
É coisa muito afamada.
Foi um feito de arrebenta
Da Coimbra anos 50
– A Gruta da Cumeada!

Só não veio no “Calino”
Que me alembro, em menino,
Ter dito, essa avantesma,
Que ia faltar a luz
Na Rua Ferreira Borges
E na Visconde da mesma!…

Foi junto ao Café Madeira,
Num poisio à maneira
Onde os putos da Avenida
Jogavam sempre à molhada
Como se cada jogada
Fosse mais que a própria vida.

Para esfolar os joelhos,
Lá estava o Luís Pinto Coelho,
O Manel, eu e o Ney
– Os quatro Satiagrás,
Um grupo que era capaz
Do que nunca vos contei:

Lá no fundo do poisio,
Por um carreirito esguio
Fomos os quatro explorar.
E não é que, de repente,
A parede à nossa frente
Era boa de escavar?

Logo o Manel risca a entrada
Daquela enorme empreitada
(Um esforço filho-da-puta!):
– Agora é de sol a sol,
Acabou-se o futebol,
Vamos abrir uma gruta!

Arranjámos pás e picas,
E enxadinhas maricas
E madeiras pra escorar.
Os da frente iam picando
A terra que iam passando
Para os de trás a vazar.

Capacetes não havia,
Que a gruta não cairia.
Só uns lenços na cabeça
Com um nó em cada canto
Para espantar o quebranto
E tudo o mais que apareça.

E a obra lá seguia,
Dois turnos em cada dia,
Um logo antes do almoço,
Outro antes do jantar,
E depois era zarpar
Para lavar o pescoço.

E os requintes eram tais,
Que as paredes laterais
Tinham uma cavidade
Para pôr uma velinha.
Não pr'adorar a santinha,
Mas para dar claridade!

Até onde a gruta iria
Ninguém nunca o saberia.
Certo é que, se chovesse,
Lá estávamos abrigados
Todos quatro, consolados,
Até que o sol aparecesse.

De tão contentes andar,
Nem cuidámos de ocultar
O segredo do tesouro
Que nos trazia encantados,
Entretidos e inchados…
– Era a nossa mina de ouro!

Mas o Pai Manuel Veloso,
Ao saber do nosso gozo,
Fez questão de ir ver a obra.
Achou que aquilo era um perigo
E embargou-a com o motivo
“Que tinha razões de sobra”!

E, pra ficar descansado,
Trouxe de Ançã um criado
Com uma enxada de respeito
Que se atirou contra a gruta
Com a sua força bruta
E deixou tudo desfeito!

E assim terminou a história
Da gruta de má memória
Que uns putos da minha idade
Construíram com a esperança,
No seu sonho de criança,
De ficar prà Eternidade!

Zé Veloso

À memória dos auto-denominados Satiagrás, um grupo de quatro miúdos da Avenida Dias da Silva inseparáveis nas suas diversões: o meu irmão Manel Veloso, o Luís Pinto Coelho, o Ney Ferrand d’Almeida e eu próprio.


domingo, 27 de agosto de 2023

crónica da ida a uma farmácia

Às vezes percebo que o meu aspecto já não é de gente nova – uma rapariga que se levanta para me dar o lugar no metro, alguém que me ampara o braço ao ver-me avançar com cuidado para uma escada rolante… Tudo normal, são gestos simpáticos.

O que eu não esperava é o que me aconteceu ontem numa farmácia da zona onde estou a banhos. Entrei para comprar um medicamento sujeito a receita médica que se me acabara. Depois de ter explicado a situação, à pergunta sobre onde estava a ser seguido, respondi, candidamente, «Em Lisboa, aqui estou só de férias».

Risada geral entre o pessoal do estabelecimento!

Só então percebi que os sinais exteriores de velhice tinham denunciado a minha condição de reformado e que, na cabeça de alguns dos que estão no activo, as férias estão para um reformado como a validade vai passar a estar para uma certidão de óbito – são permanentes!

Zé Veloso