quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

vingança de confinado

Para mal dos meus pecados,
Tenho os critérios errados!

Nem médico ou enfermeiro,
Nem técnico de saúde,
Nem GNR nem bombeiro;

Nem sequer vou amiúde
Visitar um qualquer lar,
Nem cuido de algum doente,
Nem estou na linha da frente
De coisas pra “desvirar”.

Também não estou nos oitenta.
E, logo pra meu azar,
Cinquenta e cinco passei,
Mas no meu CV não tenho
A abençoada maleita
Que me daria a receita
Para a vacina tomar.

É galo! Pura injustiça!
Anticonstitucional!
Sendo eu são, maior de idade,
Não ter quem me recomende
Para um grupinho de risco
Só pode ser por maldade!

Sou um simples confinado
Que, como qualquer penante,
Que, como qualquer mortal,
Só quer morrer descansado,
Se possível, mais adiante
E de morte natural.

Mas se por ventura acharem
Que não posso tomar já
Essa poção, por desgraça,
Saibam que serei vingado:
Pois quantos mais a tomarem,
Em cada dia que passa,
Menos provável será
Que venha a ser infectado.

Zé Veloso 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

o estado de emergência e os "votos cómodos"

Depois de ter atingido os piores índices pandémicos a nível mundial, Portugal começou, enfim, a melhorar a sua situação. Dizem os cientistas, todos eles, que o brusco abaixamento do número de novos casos se deve ao confinamento a que nos temos sujeitado. Os mesmos cientistas afirmam, unanimemente, que ainda não é tempo de abrandar, que temos de continuar confinados.

É neste contexto que a Assembleia da República discutiu hoje o decreto de renovação do Estado de Emergência, indispensável para que o dito confinamento possa continuar.

Estranhamente, ou melhor, como habitualmente, quatro partidos e uma deputada independente votaram contra, enquanto um outro partido se absteve.

Há quem chame a estes votos “votos incómodos”, porque não sendo decisivos – 6,5% contras; 8,3% abstenções – têm o condão de incomodar as consciências.

Porém, tendo-me dado ao trabalho de seguir a sessão e escutar atentamente os argumentos utlizados por cada um, tenho a convicção de que quem votou contra e quem se absteve, se neste momento tivesse a responsabilidade de governar, forçosamente teria votado a favor!

É por isso que estes votos não chegam a ser incómodos. Eles são, simplesmente, “votos cómodos”: – se as coisas correrem bem doravante, ninguém se irá lembrar de quem votou… até porque o bem raramente é notícia; – se as coisas correrem mal, sempre nos virão dizer que nunca votaram a favor!

Zé Veloso

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

apontar ao alvo errado

Se há ladroagem no bairro, o povo grita aqui-d’el-Rei que a culpa é da falta de polícia!

Se cai um prédio ou uma ponte, de certeza que a fiscalização estava a dormir.

Se há quem se aproveite do RSI, a culpa é da SS que não fiscaliza!

Se numa sala de exames os alunos copiaram é porque não havia vigilantes suficientes!

Se temos tantos acidentes de viação é porque faltam GNRs a patrulhar as estradas!

Se houve moscambilha na Bolsa foi porque a CMVM esteve distraída!

Se os Bancos fintaram o Banco de Portugal é porque o Banco de Portugal se deixou fintar!

Se um chico-esperto se aproveita das vacinas, a culpa é da task-force que só se lembrou de vacinar os chicos e se esqueceu de que, à mistura, viriam também os espertos!

Choca-me esta sistemática fixação no alvo errado. E o pior é que quando nos fixamos na falta da polícia, os ladrões passam a meninos de coro que apenas foram deixados sem ninguém a tomar conta deles …

Zé Veloso