Chamava-se Medór. Não sei quem lhe pôs o nome, nem isso
importa. Importa, sim, que os catraios tinham adoptado aquela cadelita vadia,
de pelo amarelado e perfil esguio, que procurava comida e dono na zona do Café
Madeira.
Corriam felizes pelo poisio com a cadela atrás – Medór!, Medór!
–, e o novo brinquedo até já dava pelo nome.
Um dia descobriram que a Medór tinha convocado tudo quanto
era cão nas redondezas, da Cruz de Celas ao Colégio Camões! Parecia uma rainha,
cheia de aios embasbacados a olhar para ela, prontos a convidá-la para a dança…
Para onde a Medór fosse, toda a corte seguia atrás. E aí começou uma nova
brincadeira: primeiro, chamavam a Medór para as traseiras da casa verde,
abrindo de par em par os portões do quintal; a seguir, já com a canzoada toda
lá dentro, convencida de que lhe tinham aberto as portas do céu, fechavam os
portões e investiam em bando e aos gritos contra os intrusos.
É dos livros que qualquer cão se acobarda quando é apanhado num
terreno que não seja o seu. Tando mais se estiver de consciência pesada, a ver
se ganha um vigésimo premiado que encontrou na rua… E cedo compreendiam que
andar às gatas com uma cadela vadia tem os seus riscos! Uns saltavam pelos
portões, outros trepavam pelos muros que nem gatos, outros mijavam-se de susto
enquanto andavam por ali aos oitos, e sempre havia algum que deixava um bocado
de pêlo no buraco da rede lá mais para o fundo.
Sabendo que nada tínhamos contra ela e que estava a jogar em casa, a Medór ficava por ali, pronta para nova corrida à canzoada. As leis da Natureza davam azo a estas brincadeiras, embora por tempo limitado. Mas as leis da Câmara... essas não eram para
brincar.
A camionete da recolha vinha sempre do lado de cima. Descia
a avenida precedida por alguns cães apavorados que a conheciam já, não sei se
pelo cheiro, se pelo roncar do motor ou, simplesmente, porque ouvissem ao longe
os latidos de aflição de outros cães já apanhados pelo caminho. Junto dela vinham
dois ou três tipos mal-encarados, com farda cinzenta de cotim e botas de
borracha, munidos de redes parecidas com as que servem para apanhar borboletas,
mas de tamanho king size. Com elas iam encurralando e apanhando cães e gatos, que
a seguir baldeavam para dentro do depósito de tampa abaulada daquela sinistra
camionete.
Dizia-se que os desgraçados que não tivessem coleira seriam
mortos no dia seguinte, enquanto os outros seguiriam o mesmo destino ao fim de
três dias, caso ninguém fosse por eles.
Odiávamos aquela camionete! Odiávamos aqueles homens!
E tudo fazíamos para lhes trocar as voltas. Mal percebíamos que eles lá vinham, largávamos a bola e corríamos a enxotar para longe os cães que por ali andassem, fechávamos no
quintal a Medór e quem mais com ela estivesse, e fazíamos negaças aos estúpidos
da Câmara, para que a sua vida fosse tão negra quão negra era a vida que faziam
aos indefesos animais.
Pelo sim, pelo não, construímos para a Medór, nas traseiras
da casa verde, uma casota que a abrigasse dos perigos da avenida, como se fosse
possível fixar residência a um animal vadio.
Como se os estúpidos da Câmara – cansados de ser desfeiteados pelos putos que jogavam à bola no poisio ao final da tarde – não pudessem um belo dia mudar o giro para a parte da manhã, apanhando a garotada nas aulas!... Como se os estúpidos da Câmara não pudessem, afinal, ser espertos!…
A Medór tinha coleira. Os garotos tinham-lhe arranjado uma para
que ela soubesse que tinha dono e para melhor a poderem afastar da rua. Infelizmente,
só lhe deu direito a mais três dias de vida no corredor da morte.
Zé Veloso