quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

medór e a garotada

Chamava-se Medór. Não sei quem lhe pôs o nome, nem isso importa. Importa, sim, que os catraios tinham adoptado aquela cadelita vadia, de pelo amarelado e perfil esguio, que procurava comida e dono na zona do Café Madeira.

Corriam felizes pelo poisio com a cadela atrás – Medór!, Medór! –, e o novo brinquedo até já dava pelo nome.

Um dia descobriram que a Medór tinha convocado tudo quanto era cão nas redondezas, da Cruz de Celas ao Colégio Camões! Parecia uma rainha, cheia de aios embasbacados a olhar para ela, prontos a convidá-la para a dança… Para onde a Medór fosse, toda a corte seguia atrás. E aí começou uma nova brincadeira: primeiro, chamavam a Medór para as traseiras da casa verde, abrindo de par em par os portões do quintal; a seguir, já com a canzoada toda lá dentro, convencida de que lhe tinham aberto as portas do céu, fechavam os portões e investiam em bando e aos gritos contra os intrusos.

É dos livros que qualquer cão se acobarda quando é apanhado num terreno que não seja o seu. Tando mais se estiver de consciência pesada, a ver se ganha um vigésimo premiado que encontrou na rua… E cedo compreendiam que andar às gatas com uma cadela vadia tem os seus riscos! Uns saltavam pelos portões, outros trepavam pelos muros que nem gatos, outros mijavam-se de susto enquanto andavam por ali aos oitos, e sempre havia algum que deixava um bocado de pêlo no buraco da rede lá mais para o fundo.

Sabendo que nada tínhamos contra ela e que estava a jogar em casa, a Medór ficava por ali, pronta para nova corrida à canzoada. As leis da Natureza davam azo a estas brincadeiras, embora por tempo limitado. Mas as leis da Câmara... essas não eram para brincar.

A camionete da recolha vinha sempre do lado de cima. Descia a avenida precedida por alguns cães apavorados que a conheciam já, não sei se pelo cheiro, se pelo roncar do motor ou, simplesmente, porque ouvissem ao longe os latidos de aflição de outros cães já apanhados pelo caminho. Junto dela vinham dois ou três tipos mal-encarados, com farda cinzenta de cotim e botas de borracha, munidos de redes parecidas com as que servem para apanhar borboletas, mas de tamanho king size. Com elas iam encurralando e apanhando cães e gatos, que a seguir baldeavam para dentro do depósito de tampa abaulada daquela sinistra camionete.

Dizia-se que os desgraçados que não tivessem coleira seriam mortos no dia seguinte, enquanto os outros seguiriam o mesmo destino ao fim de três dias, caso ninguém fosse por eles.

Odiávamos aquela camionete! Odiávamos aqueles homens! E tudo fazíamos para lhes trocar as voltas. Mal percebíamos que eles lá vinham, largávamos a bola e corríamos a enxotar para longe os cães que por ali andassem, fechávamos no quintal a Medór e quem mais com ela estivesse, e fazíamos negaças aos estúpidos da Câmara, para que a sua vida fosse tão negra quão negra era a vida que faziam aos indefesos animais.

Pelo sim, pelo não, construímos para a Medór, nas traseiras da casa verde, uma casota que a abrigasse dos perigos da avenida, como se fosse possível fixar residência a um animal vadio.

Como se os estúpidos da Câmara – cansados de ser desfeiteados pelos putos que jogavam à bola no poisio ao final da tarde – não pudessem um belo dia mudar o giro para a parte da manhã, apanhando a garotada nas aulas!... Como  se os estúpidos da Câmara não pudessem, afinal, ser espertos!…

A Medór tinha coleira. Os garotos tinham-lhe arranjado uma para que ela soubesse que tinha dono e para melhor a poderem afastar da rua. Infelizmente, só lhe deu direito a mais três dias de vida no corredor da morte.

Zé Veloso

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